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sente-se (irremediavelmente) conectada a uma pessoa? mesmo sem se verem, se saberem ou se sentirem?

# no more TABOCADAS

algo sinistro estava por acontecer agora: custou lembrar a senha deste meu diário virtual. mais uma vez me dei conta de que eu o abandono aqui jogado na esquina de minhas pastas compartilhadas e depois o recolho novamente com um paragráfo inicial de desculpas. é assim mesmo que somos: não damos dando antenção àquilo que nos ameniza os sufocos diários.

bueno, hoje li em algum lugar que estamos no ducentésimo dia do ano e que só faltarão mais cento e sessenta e cinco dias para nos livrarmos de dois mil e onze. livrar, entenda, no sentido de deixar partir, sem ranço, djibuôa…e é assim que a (minha) vida vai andando, tal qual dois mil e onze. longe de mim reclamar por reclamar, aliás, eu tenho 30 anos, acho que nem combina mais eu ficar escrevendo mimimis e nhénhénhéns. eu agora reclamo, caros, do crhonos que tá caro ou que não aceita mais refil, reclamo da minha falta de motivação afetiva em cultivar relações interessadas apenas em diversão e noites de loucura e prazer (uh!), reclamo que ainda não tenho nem previsão de ter um lindo filhinho, reclamo que não consigo me tornar vegan, reclamo da falta que uma verdadeira amizade faz às quintas de madrugada, reclamo a saudade de um coração machucado, porém, mais vivo que a floresta amazônica, mais sofrido que a Somália, mais sincero que um participante de reality show.

é, em dois mil e onze acho que continuo reclamando. menos, muito menos, ao menos.

Chicha

SÍNCOPE =~

um homem disse que eu tinha um coração de pedra.

menos mal que esse homem é o meu professor de yoga e o “coração de pedra” a que ele se referia tinha a ver com o meu lado esquerdo do corpo que é sofrivelmente flexível se comparado com o lado direito.

ainda bem que a comparação se ateve apenas ao lado físico, porque cara, eu sou só coração, eu sou só lembranças e eu sou só vontade de voltar no tempo a maioria das vezes. como se não bastasse, eu sou só derretimento e desejo, sou só um relógio adiantando os ponteiros pro tempo passar rápido, muito rápido, e sou só lágrimas de felicidade quando escuto uma música, cara.

saudade  de Lima de dezembro de 2008.

it’s a long way…

Sou uma simples praticante e, principalmente, me tornando apenas uma simples curiosa do Yoga. Antes eram só os ásanas, a força, o equilíbrio, a transpiração, a respiração desordenada. Com o tempo, começou a vir o interesse maior não só sobre a prática, mas também sobre o porquê da prática dos velhos hindus.

Não vou arrotar aqui traduções de sânscritos, nem contar as várias histórias dos milhares de deuses da Índia. Acredite: eu sei tanto quanto aquela senhora que compra bananas na feira. Mas bem, devo confessar que foi só depois de quase um ano de prática que comecei a me entusiasmar mais com o vasto universo que circunda a filosofia ioguin. Você pode achar balela ou papo de quem não tem algo mais interessante pra pensar ou se preocupar, você pode até pensar que “meu deus, a Madonna e o Sting fizeram lavagem cerebral em mais outra cabecinha do Ocidente”. Mas não é não.

Quando entrei no Yoga, pensei que tudo ia ser fácil, ainda mais pra mim, que sempre fiz natação e pedalava quase que diariamente: ledo engano. Não ache que você vai chegar lá, esticar seu tapetinho no chão, fazer umas torçõezinhas, entoar uns mantrazinhos e tchau, professor. Nesse momento, vi que  justamente o Hatha Yoga por ser uma vertente mais dura, mais vibrante, mais corpo, mais suor seria um desafio pra mim. E ainda está sendo um desafio. E acho que será um desafio até o último dia em que fizer uma saudação ao sol. Falo com o entusiasmo de uma criança, admito, mas cada aula é diferente, cada dia é diferente para uma prática e, o mais gratificante, cada dia é um dia diferente pra você descobrir algo a mais naquela postura que você acha que domina e não tem mais o que tirar dela.

Hoje, o que predomina ainda na minha prática é a busca pela perfeição dos ásanas e na conquista daqueles ásanas de força (onde encontro a minha maior dificuldade), na combinação sincronizada da minha respiração com o movimento corporal, na concentração que devo manter diante de um ambiente aprazível ou inóspito, na contenção da vaidade e do ego por ter conseguido finalmente esticar a perna… Afinal não é esse o fim da prática.

Creio que foi a partir do dia em que fui presenteada pelo meu professor (que, diga-se de passagem, apesar de ter sido meu único professor, é um excelente e dedicado mestre, meio turrão, mas extremamente assistente aos alunos) com um calhamaço de apostilas de Yoga que versavam sobre os mais variados temas: posturas, alimentação, karma, mantras, tapas, contos, dicas para evitar lesões, gravuras dos deuses hindus (tudo colorido =~). Uma leitura para meses. Na mesma época, ganhei de um amigo o livro Light on Yoga de Iyengar, e me deparei com uma Nellie não só mais interessada na feitura do sirshasana pura e simplesmente, mas também no que era preciso pra executar tal postura, os seus benefícios, dificuldades e recomendações e, veja você, o porquê do nomezinho.

Sirshasana

Iyengar, moçoilo, no sirshasana

Hoje o meu surya namaskara não é só mais corpo, junto com ele, eu inspiro e exalo, tento cantarolar mentalmente o mantra da saudação ao sol, tudo em busca de uma prática simétrica e mais além: revigorante.

Surya Namaskara B


E nem reclame, dona Nellie, porque neguinho hindu diz que são 108 saudações ao sol, podendo ser dividido em 54, depois 27. Você ainda está em 10. É um longo caminho.

Gayatri Mantra (mantra de saudação ao sol)

OM

BHUR BHUVAH SVAH

TAT SAVITUR VARENYAN

BHARGO DEVASYA DHEEMAH

DHIYO YO NAHA PRACHODAYAT

o grande problema é que, além de ser extremamente competitiva, sou vaidosa, exigente e meço meu esforço através do que os outros conseguem ou podem fazer. falando assim, pode soar que sou uma pessoa fria e calculista, mas NÃO SE ENGANEM porque essas características fazem com que eu seja uma ótima auto-cobradora. e isso é quase um flagelo quando você busca agir com calma, paciência e serenidade. também NÃO SE COMPADEÇAM de mim porque, de uma certa forma, ser uma estabanada emocional faz com que eu sempre tente achar um freio, um equilíbrio. é um trabalho árduo, porém possível.

é como no Yoga: o professor pede pra você fazer a posição do bailarino real, aquela posição de boas, super fácil e pans e, de repente, você naquela terça-feira, não consegue achar o equilíbrio, e a posição, antes facílima, torna-se mais difícil que montar um cubo mágico. daí o que fazer? se desesperar? desistir? achar que desaprendeu?

a minha idéia é justamente essa: nada de desespero! respira fundo…olha pra frente…abusa do pranayama, dos bandhas, dos thapas…você sabe fazer, você consegue fazer, ué. fantasticamente, surge em mim a humildade de reconhecer que não sou foda fazendo o tal bailarino e que se um dia eu achei que era a foda fazendo tal posição, me ferrei. cada dia é um dia novo. um dia novo que você aprende coisas novas e aprende coisas novas de coisas velhas, coisas que você, do alto de sua sibiteza, achava que sabia tudo e nem se interessava mais em olhar com o mínimo de atenção.

ou seja, a gente não sabe é de nada. e tem pouco tempo que soube disso.

senti ontem um formigamento dentro do peito. e não havia cachorros com a cara pra baixo ou com a cara pra cima que me fizesse manter a concentração. é duro saber que, mais uma vez – é, mais uma vez-, se aproxima um momento em que meu coração vai ficar apertadinho novamente, bem pequenininho.

é ruim deixar partir; é ruim se enxergar só sem as suas referências que andam, comem e fazem xixi; é ruim talvez nunca mais compartilhar o temor de uma pesagem tenebrosa depois de um fim de semana de orgias gastronômicas; é ruim perceber que talvez eu nunca possa comentar um ásana com a empolgação de uma criança que aprendeu a andar de bicicleta; é ruim a falta que pode fazer em mim um aperto de mão ou um simples olhar que diz um texto de 4 páginas; é ruim saber que neste exato momento em que aperto meus dedos neste teclado, minha garganta coça e meus olhos se enchem de lágrimas de saudade, de uma saudade que ainda não existe, mas que vai surgir com a força de um pugilista…

e é bom sentir que se hoje sou uma pessoa diferente é graças a eles; é bom saber que a partir de deus sabe quando eles estão guardados dentro do meu coração que bate num teleco teco; é bom saber que a onda vai, vai e vai, balança, mas não cai; é bom saber que em qualquer lugar que eles estejam, estaremos aqui, no mesmo lugar.

um grande beijo para Paola e Breno, meus companheiros de infantaria.

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